A decisão da Igreja conservadora de aceitar apenas os 4 evangelhos conhecidos, deixando de fora cerca de 27 outros textos (os Apócrifos), baseou-se em critérios de Apostolicidade e Ortodoxia estabelecidos principalmente entre os séculos II e IV (como no Cânone de Muratori e no Concílio de Roma).

A suposição central é que apenas Mateus, Marcos, Lucas e João preservavam a “tradição pura” vinda diretamente dos apóstolos. Os outros textos, como os Evangelhos de Tomé, Filipe e Maria Madalena, foram excluídos por serem considerados Gnósticos (místicos demais) ou por terem sido escritos tardiamente. Para a Igreja, esses textos omitidos não eram historicamente precisos, mas sim obras de ficção teológica que poderiam confundir os fiéis ao sugerir, por exemplo, que Jesus era apenas um espírito (sem corpo) ou que ele teria passado ensinamentos secretos apenas a alguns eleitos.

Para entender o que a Igreja deixou de fora ao selecionar os quatro evangelhos canônicos, é preciso mergulhar nos chamados Evangelhos Apócrifos (ou Proibidos). Esses textos, muitos encontrados apenas em 1945 no Egito (Biblioteca de Nag Hammadi), revelam uma face de Jesus muito diferente daquela pregada em Roma.

Abaixo, detalho três dos principais textos excluídos e como eles contrastam com a Bíblia oficial:

1. O Evangelho de Maria Madalena

Este texto é o maior desafio à estrutura hierárquica da Igreja. Ele não foca na morte ou ressurreição, mas em diálogos filosóficos.

O Conteúdo: Nele, Maria Madalena aparece como a discípula favorita, a única que realmente compreendeu a profundidade da mensagem de Jesus. Ela consola os apóstolos após a crucificação, relatando visões que teve do Mestre.

O Conflito: O texto mostra uma disputa clara entre Pedro e Maria. Pedro questiona: “Acaso o Salvador falaria em segredo a uma mulher e não a nós?”.

Por que foi excluído? A Igreja conservadora era estruturada sobre a autoridade masculina (a sucessão de Pedro). Um texto que dava a uma mulher o papel de líder espiritual e receptora da revelação máxima era politicamente inaceitável para a época.

2. O Evangelho de Tomé

Diferente dos quatro evangelhos da Bíblia, este não narra a vida de Jesus, nem milagres, nem a crucificação. É uma lista de 114 ditos secretos.

O Conteúdo: Jesus é apresentado como um mestre de sabedoria que ensina que o Reino de Deus está dentro de cada pessoa e em toda a natureza. “Racha uma madeira e eu estarei lá; levanta uma pedra e me encontrarás”.

A “Gnosis”: O texto sugere que a salvação vem pelo autoconhecimento, e não pelo sacrifício de Jesus na cruz.

Por que foi excluído? Ele torna a figura do padre e da própria Igreja institucional “desnecessários”. Se Deus está dentro de você e pode ser encontrado rachando uma madeira, você não precisa de um templo ou de um ritual de sacrifício para se salvar.

3. O Evangelho de Filipe

Este é o texto que mais alimenta a teoria da sobrevivência física de Jesus e união com Madalena.

O Conteúdo: O texto afirma explicitamente: “O Senhor amava Maria mais do que todos os discípulos e costumava beijá-la frequentemente na boca”.

A Teoria da Linhagem: Para os seguidores deste texto, o “beijo” simbolizava a transmissão de conhecimento, mas para os historiadores revisionistas, é a prova de um relacionamento humano e conjugal.

Por que foi excluído? Para a Igreja conservadora, Jesus precisava ser o “Cordeiro Imaculado”, divino e sem laços carnais, para que seu sacrifício tivesse valor teológico universal. A ideia de um Jesus casado humanizava o Messias além do que a doutrina oficial permitia.

Autor

Michel
Michel
Apaixonado por astronomia, arqueologia, ciência e os mistérios do mundo. Em uma busca constante por respostas, somente achou mais perguntas. Aqui compartilho o que acho de interessante.