A dor da alma não faz barulho. Ela não sangra onde os olhos alcançam, mas corrói por dentro, silenciosa e implacável. Para quem cresce em uma família disfuncional, sob a sombra da rejeição e do desamparo, a existência não se apresenta como um campo de descobertas, mas como um terreno minado. As crianças que nascem em lares onde o afeto é escasso, imprevisível ou violento aprendem muito cedo que o mundo não é um lugar seguro. Elas não aprendem a amar, aprendem a sobreviver. O amor, que deveria ser porto e refúgio, torna-se uma ameaça carregada de segundas intenções. Qualquer gesto de gentileza acende um alerta imediato, uma voz interna que pergunta o que o outro quer em troca ou quando virá o inevitável golpe. Assim, a escolha de se fechar e erguer muros intransponíveis não nasce da crueldade, mas de um ato desesperado de autopreservação. É a construção de uma armadura tão pesada que protege contra o ataque, mas impede totalmente o abraço.
Crescer na rejeição significa carregar uma ferida primordial para a vida adulta. A criança rejeitada torna-se o adulto que caminha pelo mundo com a sensação constante de ser inadequado, de ser um fardo ou de não merecer ocupar espaço. Essa dor não desaparece com o tempo; ela se transforma em uma lente fixa através da qual tudo é interpretado. A pessoa passa a vida antecipando o abandono, reagindo a sombras e buscando nas relações adultas a aprovação que nunca teve na infância, ou afastando todos antes que tenham a chance de parti-la ao meio. A confiança, uma vez assassinada nos primeiros anos de vida, não deixa um fantasma, deixa apenas um vazio gélido. Nada mais é visto com ingenuidade. A ausência de uma referência saudável faz com que a dor e a desconfiança se tornem a única casa conhecida. Por mais fria e dolorosa que essa casa seja, ela é familiar, e o desconhecido, mesmo quando promete paz, causa um terror paralisante. É a tragédia de não saber viver algo diferente, de olhar para a felicidade dos outros como quem observa uma língua estrangeira que ninguém se deu ao trabalho de traduzir.
Costuma-se romantizar o renascimento, mas a verdade é brutal: renascer dói quase tanto quanto morrer. O processo de reconstrução não apaga o passado nem limpa o histórico de batalhas. A pele nova cresce sobre o tecido rasgado, rígida e marcada por cicatrizes que permanecem como lembretes permanentes de onde o ferro quente tocou. Os traumas não desaparecem simplesmente por uma decisão racional de seguir em frente; eles habitam o corpo, manifestam-se no susto diante de um gesto brusco, na insônia diante de um silêncio prolongado ou no nó na garganta quando a intimidade se aprofunda. Aprender a viver sob uma nova lógica é um processo desajeitado e assustador. Quem só conheceu a tempestade sente tontura ao pisar em terra firme e desconfia da calmaria, interpretando o sossego como uma armadilha prestes a ser disparada. Ainda assim, decidir enfrentar esse desconhecido, mesmo carregando o peso de uma infância partida e sem saber exatamente o que é o amor, é o ato mais corajoso que uma alma despedaçada pode realizar. É o exercício diário e doloroso de abaixar a guarda um milímetro por vez, aprendendo a existir além do medo.
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Gosto de me expressar por meio de palavras que mostram a minha essência.
Tocar corações é minha missão de alma.
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